“Quem não mede não gere.” A frase não é minha, é da Camila Farani, a tubarão mais linda do Shark Tank, e resume uma verdade que todo empreendedor precisa levar a sério: não existe boa gestão sem informação.
Para o pequeno empreendedor, essa questão ganha ainda mais importância. Em muitos negócios, uma única pessoa cuida de praticamente tudo. É ela quem vende, atende o cliente, compra mercadoria, acompanha o estoque, paga as contas, divulga a empresa e, muitas vezes, ainda precisa cuidar da parte financeira. Diante de tantas tarefas, acompanhar os números pode parecer mais uma obrigação. Na verdade, é justamente o que ajuda o empreendedor a saber se todo esse esforço está produzindo resultado.
Gestão começa quando o empreendedor conhece seus números
Gerenciar não significa apenas trabalhar muito ou manter a empresa funcionando. Gestão envolve planejar, organizar, dirigir e controlar os recursos disponíveis para alcançar os objetivos do negócio.
Por isso, algumas perguntas precisam ter respostas claras: quanto a empresa vendeu? Quanto gastou? Quanto sobrou? Quanto foi reinvestido? Quanto existe em estoque? O empreendedor está retirando algum valor pelo seu trabalho? Como os resultados do negócio estão se comportando?
Essas respostas não servem apenas para preencher uma planilha. Elas ajudam o empreendedor a tomar decisões.
Imagine, por exemplo, um pequeno negócio que vendeu R$ 1.000 em determinado período. Saber apenas que houve R$ 1.000 em vendas não permite entender a situação da empresa. É preciso saber quanto desse dinheiro está comprometido com compras, despesas, estoque e outras obrigações. Sem essa visão, o empreendedor pode ter a sensação de que está vendendo bem, enquanto o caixa continua apertado.
É por isso que medir não é complicar a gestão. É tornar a realidade do negócio mais clara.
Fluxo de caixa é o coração da empresa
Entre todos os controles, o fluxo de caixa ocupa um papel central. Ele permite acompanhar as entradas e saídas dos recursos financeiros da empresa durante determinado período.
Para entender sua importância, basta observar a engrenagem que mantém o negócio funcionando. O dinheiro disponível permite comprar ou repor estoque. O estoque precisa ser vendido. A venda gera receita, mas nem sempre o dinheiro entra imediatamente. Quando ocorre o recebimento, o recurso volta para o caixa e pode novamente ser utilizado para manter a operação.
Quando uma parte dessa engrenagem não funciona bem, as demais começam a sentir os efeitos.
Um exemplo simples é quando o empreendedor compra mais mercadoria do que o negócio consegue vender naquele momento. O dinheiro que estava disponível fica parado no estoque. Ao mesmo tempo, as despesas continuam chegando. Se as vendas acontecem parceladas, o dinheiro das vendas também pode demorar a retornar ao caixa.
Nesse cenário, o problema não necessariamente está na falta de vendas. Pode estar na forma como o dinheiro está circulando.
Por isso, acompanhar o fluxo de caixa ajuda o empreendedor a enxergar o que está acontecendo antes que a falta de dinheiro se transforme em um problema maior.
Estoque, vendas e caixa precisam conversar
O estoque também representa dinheiro. Para comprar uma mercadoria, o empreendedor utiliza recursos da empresa. Depois, essa mercadoria precisa ser armazenada, controlada e vendida para que o recurso volte a circular.
Quando o estoque cresce sem planejamento, uma parte importante do dinheiro pode ficar presa em produtos que ainda não foram vendidos.
Por outro lado, não adianta simplesmente vender mais sem observar como essas vendas afetam o caixa. Uma empresa pode aumentar suas vendas e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras se o dinheiro não retornar no momento necessário para pagar seus compromissos.
É justamente por isso que estoque, vendas e caixa não devem ser analisados separadamente. Eles fazem parte de uma mesma engrenagem.
Para o pequeno empreendedor, compreender essa relação pode fazer uma grande diferença. Afinal, quando não existe uma equipe financeira acompanhando o negócio, essa visão precisa estar nas mãos de quem está à frente da empresa.
Misturar o dinheiro pessoal com o dinheiro da empresa dificulta a gestão
Outro ponto de atenção é a mistura entre as finanças pessoais e as finanças do negócio.
Quando o dinheiro da empresa passa a pagar despesas pessoais sem controle, fica cada vez mais difícil saber quanto o negócio realmente movimenta, quanto custa mantê-lo funcionando e qual é o resultado gerado pela operação.
O empreendedor precisa conseguir olhar para a empresa e identificar o que pertence ao negócio. Sem essa separação, os números deixam de mostrar a realidade com clareza.
E, quando os números deixam de mostrar a realidade, a tomada de decisão também fica comprometida.
Capital de terceiros pode ser uma ferramenta, mas não substitui a gestão
Recorrer a empréstimos ou a outras formas de capital não é, por si só, o problema. A própria abordagem apresentada no conteúdo destaca que o custo do capital de terceiros pode, em determinadas situações, ser menor do que o custo do capital próprio.
A questão principal é saber para que o dinheiro está sendo utilizado.
Tomar recursos para uma finalidade planejada é diferente de recorrer constantemente a dinheiro de terceiros para cobrir uma gestão que não está funcionando.
Quando o negócio passa a depender continuamente de empréstimos, antecipações ou de receitas futuras para continuar funcionando, surge um sinal de alerta. O dinheiro que deveria dar sustentação à operação começa a ser utilizado apenas para manter o negócio de pé.
É nesse contexto que aparece o chamado efeito tesoura, associado à falta de planejamento e gestão e à dependência constante de capital de terceiros. Se essa fonte de recursos deixa de estar disponível, a empresa pode chegar a uma situação muito delicada.
O problema, portanto, não é simplesmente pegar dinheiro emprestado. É não saber exatamente qual problema aquele dinheiro está resolvendo.
Não adianta ter sistema se você não alimenta
Hoje existem diversas formas de acompanhar as finanças de uma empresa. Pode ser uma planilha, um aplicativo, um sistema de gestão ou até mesmo um controle mais simples, feito no papel.
A ferramenta escolhida é menos importante do que a disciplina de utilizá-la.
Não adianta investir em um sistema sofisticado e não registrar as movimentações. Também não adianta ter uma planilha perfeita se ela fica desatualizada.
Para o pequeno empreendedor, que muitas vezes precisa fazer tudo sozinho, o controle precisa ser simples o suficiente para fazer parte da rotina.
O objetivo não é criar burocracia. É ter informação para decidir.
Você não está atrasado porque sua empresa ainda está construindo resultados
Existe também uma pressão que pode atrapalhar bastante quem empreende: a comparação.
A internet cria a impressão de que todo mundo está crescendo rapidamente, alcançando grandes resultados, comprando patrimônio e construindo negócios de sucesso em pouco tempo. Mas comparar a realidade da sua empresa com aquilo que outra pessoa escolheu mostrar é uma forma perigosa de avaliar a própria trajetória.
Não existe uma idade única para alcançar determinados resultados, nem um prazo universal que determine quando um negócio deveria estar lucrando ou crescendo.
Cada empresa tem sua realidade, seu mercado, seus desafios e seu processo de construção.
O empreendedor precisa olhar menos para a aparência dos resultados dos outros e mais para os próprios números. É o acompanhamento da própria evolução que permite identificar o que está funcionando, o que precisa ser ajustado e quais decisões devem ser tomadas.
Quem mede consegue decidir melhor
Para quem está à frente de um pequeno negócio, controlar números pode parecer mais uma tarefa em meio a tantas outras. Mas é justamente esse controle que permite sair do improviso e começar a administrar com mais consciência.
Saber quanto vendeu, quanto gastou, quanto possui em estoque, quanto entrou no caixa e quanto precisa sair não é excesso de controle. É gestão.
O pequeno empreendedor não precisa, necessariamente, de uma estrutura complexa para começar. Precisa conhecer a realidade financeira do próprio negócio e criar o hábito de acompanhar aquilo que realmente importa.
Porque, no fim, quem não mede não gere.
E quando o empreendedor começa a medir, ele deixa de tomar decisões apenas pela sensação de que as coisas estão indo bem ou mal. Ele passa a decidir com base na realidade da própria empresa.
É assim que o esforço começa a se transformar em gestão, e a gestão pode abrir caminho para resultados mais consistentes.